O professor Gabriel Dorfman, da Universidade de Brasília, publicou um artigo no qual critica o processo de “inclusão digital” no setor financeiro. Para ele, o termo encobre o avanço do poder econômico e político sobre a autonomia dos cidadãos comuns.
Dorfman afirma que a digitalização dos serviços bancários é um campo de batalha onde o grande capital está próximo da vitória final contra uma classe média quase extinta. O cerco teria dois objetivos principais: a extinção dos trabalhadores do setor financeiro e a submissão do cidadão aos interesses do capital concentrado.
Segundo o autor, o primeiro objetivo já está praticamente alcançado. Bancários e trabalhadores do setor estariam reduzidos a um grupo submetido a metas predatórias, instabilidade no emprego e incerteza sobre o futuro de seus postos de trabalho.
O segundo objetivo estaria prestes a se consumar. O professor diz que o fim do processo de “inclusão digital” acontecerá quando nenhum indivíduo tiver o direito de levar sua vida a salvo desse “tsunami”.
O artigo aponta uma aliança entre os bancos digitais e os predadores do mundo digital. Para Dorfman, a multiplicação dos bancos digitais e a adesão dos bancos tradicionais a essa tendência extinguem as possibilidades de interação entre usuários e prestadores de serviço no mundo real.
O autor critica o uso do tema “segurança” como argumento para justificar a extinção dos postos de atendimento físico. Ele compara a redução do número de agências bancárias à conduta de criminosos profissionais, que usam a ocultação de endereços como tática para escapar ao controle das autoridades.
Na defesa do que resta de liberdade de decisão, o professor defende que o cidadão comum deveria se ater aos prestadores de serviço que têm endereço físico conhecido e acessível. Segundo ele, ao dizerem onde moram, esses prestadores são obrigados a mostrar sua face.
Gabriel Dorfman é professor do Departamento de História da Arquitetura e do Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. Ele é doutor em Arquitetura pela Technische Universität Berlin.
