18/07/2026
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Higiene bucal no Alzheimer: como cuidar sem trauma

Higiene bucal no Alzheimer: como cuidar sem trauma

Quando uma família recebe o diagnóstico de Alzheimer, a atenção se volta para a perda de memória, o comportamento e a segurança do paciente. No entanto, a higiene bucal frequentemente se torna um dos maiores desafios diários, segundo o odontogeriatra Dr. Marco Polo Siebra, fundador do Grupo de Apoio Alzheimer MS.

O médico relata ouvir semanalmente relatos de cuidadores: “Meu pai não deixa ninguém chegar perto da boca dele”, “Minha mãe esqueceu como se escova os dentes” ou “Tenho medo de machucá-la”. Essas falas revelam que o declínio cognitivo transforma o ato de escovar os dentes em uma experiência aversiva e confusa para o paciente e exaustiva para o cuidador.

A progressão do Alzheimer afeta áreas do cérebro responsáveis pela coordenação motora fina, pela memória procedural (que guarda sequências de ações, como pegar a escova e colocar pasta) e pela percepção sensorial. Com isso, o paciente pode não reconhecer a escova como um objeto familiar, interpretando-a como algo estranho ou ameaçador. Também pode esquecer a sequência do movimento, gerando frustração e ansiedade, sentir dor ao abrir a boca (comum em idosos com próteses mal ajustadas) ou apresentar resistência ativa, como morder a escova.

Existem abordagens práticas para lidar com essa situação. A técnica do “Mãos sobre Mãos” consiste em posicionar-se ao lado ou atrás do paciente e colocar a mão sobre a dele, guiando o movimento da escova. Isso reduz a sensação de invasão e preserva a autonomia residual. Outra estratégia é manter ambiente preparado e rotina fixa: realizar a higiene sempre no mesmo horário, local e com os mesmos instrumentos, pois a previsibilidade reduz o estresse.

A comunicação deve ser simplificada, com comandos diretos como “Abre a boca” em vez de perguntas abertas. Instrumentos adaptados, como escovas com cabos longos e grossos, cerdas ultra macias e cremes dentais com sabor neutro, também ajudam. Sabores fortes de menta podem causar aversão em pacientes com alterações sensoriais.

A lubrificação é outro cuidado essencial, já que muitos medicamentos usados no Alzheimer causam boca seca (xerostomia). Oferecer água com frequência e usar géis hidratantes orais ajuda a prevenir feridas e cáries. A boca seca é uma das principais causas de desconforto e recusa alimentar.

O especialista ressalta que haverá dias em que o paciente recusará completamente o cuidado bucal, e isso é normal. O importante é não desistir e buscar ajuda profissional ao notar sangramento excessivo, mau hálito persistente, mudança de comportamento, recusa de alimentos ou perda de peso por dificuldade de mastigação. No Grupo de Apoio Alzheimer MS, a experiência mostra que cuidar de quem cuida é tão urgente quanto cuidar do paciente. A higiene bucal não é sobre perfeição, mas sobre dignidade, afeto e preservação da qualidade de vida.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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