A prisão do narcotraficante internacional Gerson Palermo, ocorrida nesta terça-feira (26) em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, é resultado de uma investigação iniciada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul em outubro do ano passado. O caso começou depois que ele ordenou o sequestro da própria filha, em Campo Grande. A jovem, de 25 anos, foi torturada em um cativeiro localizado no bairro Moreninhas. Após ser libertada, ela ajudou a Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros) a prender os sequestradores.
Segundo a Polícia Civil, a apuração teve início após a identificação de um plano articulado por Palermo para sequestrar a filha. A motivação teria sido uma disputa envolvendo R$ 50 mil, dinheiro que teria origem no narcotráfico. Conforme divulgado na época, a jovem foi abordada quando saía do trabalho, na região central da Capital. Para atraí-la, o pai ligou afirmando que mandaria alguém entregar uma quantia em dinheiro para ajudar nos custos do tratamento de saúde da avó, que é acamada.
Dois homens estavam no carro e disseram, segundo o boletim de ocorrência, que queriam receber dinheiro do “velho”, apelido de Gerson Palermo. A vítima foi levada ao cativeiro, onde foi torturada com agressões físicas e psicológicas. Em fotos enviadas ao marido da vítima, ela aparecia amarrada. Os sequestradores exigiam dinheiro em troca da libertação e faziam ameaças de morte. O marido avisou a Garras. Durante as diligências, a jovem foi libertada na região das Moreninhas. Ela confirmou aos policiais que o pai orquestrou o sequestro e que ele estava escondido com a mãe dela na Bolívia.
A partir da elucidação do caso, a investigação prosseguiu por meio do Núcleo de Inteligência Policial da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), em atuação integrada com a Polícia Federal e a FELCN (Força Especial de Combate ao Narcotráfico da Bolívia). O trabalho permitiu identificar a localização de Palermo na região de Santa Cruz de la Sierra. Após meses de monitoramento, a polícia boliviana deflagrou uma operação que culminou na prisão do investigado.
Gerson Palermo é apontado pelas autoridades como integrante do PCC (Primeiro Comando da Capital). O nome do narcotraficante está ligado ao transporte de cocaína da Bolívia para o Brasil e outros destinos internacionais, além da lavagem do dinheiro obtido com os negócios ilegais. Foragido desde 2020 e condenado a 126 anos, ele tem um histórico criminal que inclui o sequestro de um Boeing da Vasp em 2000 e a responsabilidade pela derrocada do desembargador Divoncir Schreiner Maran, do TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul).
Em 1980, quando tinha 22 anos, Palermo foi preso após uma abordagem da Polícia Federal na Via Dutra, perto de Resende, no Rio de Janeiro. Na ocasião, policiais interceptaram um carro com 100 quilos de maconha. Em 1990, foi apontado como um dos principais responsáveis pelo envio de drogas do Paraguai ao Brasil. O episódio mais conhecido ocorreu em 2000, quando liderou o sequestro de um Boeing 727 da Vasp, roubando malotes do Banco do Brasil com cerca de R$ 5,5 milhões. Pelo sequestro, foi condenado a 66 anos e 9 meses de prisão.
Em 2007, foi preso em Campo Grande sob suspeita de coordenar uma quadrilha que movimentava 1,4 tonelada de maconha. Em 2017, foi o principal alvo da Operação All In, da PF, contra o tráfico internacional de drogas. A prisão na Bolívia recoloca Palermo no centro de um caso que mistura tráfico internacional, fuga e suspeita de venda de decisão judicial.
