A consulta pública promovida pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) para discutir a criação do REVIS (Refúgio de Vida Silvestre) Delta do Salobra não foi realizada na tarde desta quarta-feira (17). Produtores rurais contrários à proposta lotaram o auditório da Prefeitura de Bodoquena e promoveram uma manifestação contra a criação da unidade de conservação.
O encontro estava marcado para as 14h e tinha como objetivo apresentar os estudos técnicos sobre a unidade, que abrange aproximadamente 60,8 mil hectares nos municípios de Bodoquena e Miranda. A prefeita Girleide Rovari (MDB) afirmou que os produtores não concordam com a proposta e impediram a realização da audiência. “Os produtores se pronunciaram, tomaram a frente e não aconteceu. Houve afronta, teve policiamento, mas não teve briga”, disse.
O ICMBio confirmou que a consulta não ocorreu devido aos protestos. O instituto ainda não informou uma nova data para o evento nem os próximos encaminhamentos.
Em ofício encaminhado ao ICMBio e ao Sindicato Rural, a Prefeitura de Bodoquena comunicou a impossibilidade de realização da consulta por questões de segurança. O auditório da prefeitura tem capacidade para cerca de 250 pessoas sentadas, mas mais de 350 estavam presentes no local. A Polícia Militar informou que não havia condições adequadas para garantir a segurança dos participantes devido à superlotação e à dificuldade de controle do fluxo de pessoas.
O presidente do Sindicato Rural de Bodoquena e Miranda, Adauto Rodrigues de Oliveira, afirmou que a mobilização foi espontânea e dentro da legalidade. “Os produtores foram por conta própria, sem ligação com o sindicato. Mas a reclamação deles é que querem enfiar tudo goela abaixo, fazer um novo Parque da Serra da Bodoquena sem indenização nenhuma”, declarou.
Proposta da unidade de conservação
A proposta do ICMBio prevê a criação do Refúgio de Vida Silvestre Delta do Salobra em uma área de transição entre os biomas Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica. Cerca de 80% do território está em áreas classificadas como prioritárias para conservação pelo Ministério do Meio Ambiente.
O instituto afirma que o modelo REVIS permite a permanência de propriedades privadas e a continuidade de atividades produtivas compatíveis com a conservação, sem necessidade de desapropriações. Aproximadamente 42% da área já é composta por morrarias, áreas alagáveis, APPs e Reservas Legais.
A unidade também foi apresentada como instrumento para proteção dos recursos hídricos dos rios Salobra e Miranda e para preservação de espécies ameaçadas, como onça-pintada, arara-azul, cervo-do-pantanal e tatu-canastra.
Com o cancelamento, o processo de discussão sobre a criação do refúgio segue sem definição. A prefeitura informou estar à disposição para definir uma nova data e um local com estrutura compatível com o número de participantes esperado.
