O caos no trânsito na porta das escolas, especialmente nas particulares, se repete todos os dias nos horários de entrada e saída. Carros param em fila dupla ou tripla, motoristas ocupam faixas inteiras, crianças desembarcam pelo lado do trânsito e pais buzinam com impaciência. O objetivo é economizar dois minutos de caminhada ou garantir que o filho pare o mais perto possível do portão.
O que pode parecer uma infração de trânsito comum e uma “pequena esperteza” é, na verdade, uma aula prática de cidadania. A lição passada para as crianças é que o conforto individual está acima das regras e do bem-estar coletivo.
Ao desembarcar no meio da rua, ignorar a faixa de pedestres e travar o trânsito de centenas de pessoas, o adulto transmite uma mensagem de exclusivismo. A criança cresce entendendo que é especial demais para andar um quarteirão, que as leis foram feitas para os outros e que o espaço público é uma extensão da sua conveniência privada.
O resultado dessa “pedagogia do privilégio” aparece anos depois. A mesma criança, agora adulta, estaciona sem remorso em vagas reservadas para idosos ou pessoas com deficiência. Para na vaga de amamentação “só por um minutinho”, fura filas, joga lixo pela janela do carro e reage com agressividade ao ser contrariado. Esse comportamento reflete uma sociedade mais individualista e sem senso comunitário.
Os pais costumam cobrar das escolas uma educação de excelência com valores morais e cívicos. No entanto, esquecem que a educação pelo exemplo começa no banco do motorista. Estacionar um pouco mais longe, dar a mão ao filho, caminhar até a escola e atravessar na faixa de pedestres tem um valor pedagógico grande. Ensina empatia, respeito às leis, paciência e a noção de que se vive em sociedade. Mostra que o mundo não gira em torno do próprio umbigo.
O texto é de autoria de Carlos Alberto Rezende, conhecido como Professor Carlão. Para ele, se o objetivo é ter adultos conscientes e éticos no futuro, é preciso corrigir as atitudes no presente. O trânsito na porta da escola não é apenas uma questão de mobilidade urbana, mas um espelho do tipo de ser humano que está sendo criado.
