As colisões veiculares com a fauna silvestre em Mato Grosso do Sul não vitimam apenas animais, mas também pessoas. Segundo a Incab (Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira), 51 pessoas morreram em acidentes com antas nas rodovias sul-mato-grossenses nos últimos 13 anos. Os números alertam também para a incidência geral de colisões envolvendo animais nas estradas do estado, que aumentou 69% no primeiro trimestre deste ano em comparação a 2025.
Os dados são do Mapa de Colisões com a Fauna, iniciativa do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) em parceria com o Observatório Rodovias Seguras para Todos. O levantamento aponta que os registros de acidentes envolvendo antas saltaram de cinco, no primeiro trimestre de 2025, para 58 nos três primeiros meses de 2026, um aumento superior a 1.000%.
Apesar de as antas ocuparem a nona posição entre as espécies com maior número de ocorrências, os acidentes com a espécie tendem a ser os mais graves devido ao porte do animal. Por ser o maior mamífero terrestre da América do Sul, podendo atingir até 300 kg, o impacto com uma anta costuma resultar em danos materiais severos e perda de vidas humanas, como explica a bióloga e coordenadora da Incab, Patrícia Medici.
“Uma colisão com esse animal é, via de regra, um grande acidente, que leva à morte do bicho, a prejuízos materiais, na grande maioria dos casos com perda total do veículo, a ferimentos e, o mais grave de tudo, a óbitos humanos”, afirma.
No dia 3 de agosto, uma adolescente de 13 anos e um homem de 38 anos morreram em um acidente envolvendo uma anta na BR-267, entre Rio Brilhante e Maracaju. Os dois estavam em um Chevrolet Onix, no sentido Maracaju, quando atingiram o animal na pista. Com o impacto, o motorista perdeu o controle da direção, invadiu a pista contrária e bateu de frente com um caminhão carregado com etanol. Ambos os veículos pegaram fogo.
Pontos mais vulneráveis
Em Mato Grosso do Sul, o tatu-peba lidera o ranking de fauna vitimada por colisões rodoviárias, somando 1,8 mil registros nos últimos 13 anos. Em seguida, aparecem as aves e o cachorro-do-mato, com 1,4 mil ocorrências cada, acompanhados pelo tatu-galinha e pelo jacaré-do-pantanal, que ultrapassam 700 casos. O levantamento traz ainda o tamanduá-bandeira, a capivara e o tamanduá-mirim (mais de 500 registros cada), além da anta (333) e da seriema (quase 300).
Entre os trechos mais críticos do estado, a BR-262 lidera o índice de acidentes, acumulando 8,1 mil colisões. As rodovias BR-267 e MS-040 surgem logo na sequência, superando a marca de 2 mil ocorrências cada uma. Para o Observatório Rodovias Seguras para Todos, esses locais são pontos críticos, regiões com rica biodiversidade e espécies em trânsito, mas que, ao mesmo tempo, correm sério risco de desaparecimento devido aos acidentes.
A ação humana
A antropização dos habitats naturais é a principal causa do problema, resultado de um longo histórico de degradação ambiental no Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica, biomas que cobrem o estado. A transição da pecuária para a agricultura intensiva (como a soja), a expansão da silvicultura e os incêndios florestais reduziram a vegetação nativa a pequenos fragmentos isolados.
Patrícia explica que, sem grandes extensões contínuas de habitat, a fauna não encontra áreas adequadas para se fixar. “Esse animal fica circulando por essa paisagem antropizada, alterada e degradada. Nesse trânsito entre pequeninas áreas remanescentes, o bicho cruza as rodovias. É um animal que fica constantemente exposto e vulnerável por conta dessa falta de habitat”.
De acordo com a bióloga, a prevenção de acidentes já conta com base científica e soluções consolidadas, como o mapeamento de trechos críticos, cercamentos e passagens de fauna, adaptáveis às características de cada local. “São métodos facilmente padronizáveis e aplicáveis a diferentes rodovias. A partir de uma breve avaliação técnica da área a ser pavimentada, licenciada ou operada, é possível definir quais medidas adotar em cada trecho”, completa.
Estudos do instituto de pesquisa da ONG Pew Charitable Trusts indicam que a implementação de cercas direcionadoras aliada a passagens inferiores de fauna (túneis sob a pista) reduz os acidentes rodoviários em até 80%.
“Os dados a gente já tem, o conhecimento técnico sobre as medidas mais adequadas a gente já tem, os planos de mitigação para as rodovias com maior risco de colisões veiculares com antas nós já temos. A gente já conhece quais são elas e quais são os pontos mais críticos. Enfim, a informação está toda disponível”, pontua Patrícia.
