Em visita ao Brasil pela décima vez, a escritora e ativista Angela Davis, uma das principais referências do feminismo, afirmou que os supremacistas brancos nos Estados Unidos não estão em ascensão, mas apenas “saíram do armário”. A declaração foi dada em entrevista no Rio de Janeiro, antes de sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que ocorre no sábado (25), às 18h, no Sesc Caborê, para uma plateia de 700 pessoas.
Davis nega que o trumpismo represente o sentimento da maioria dos americanos. Para ela, a volta de Donald Trump ao poder se deve ao fato de muitas pessoas terem deixado de votar. “Se esquecermos isso, assumimos que esse tipo de conservadorismo e a supremacia branca estão em ascensão. E não acho que estejam. Eu acho que eles apenas saíram do armário”, disse.
Questionada sobre a influência da supremacia branca na política americana, a ativista lembrou que o ataque ao Congresso em 2021 foi obra de cerca de um quarto da população. Ela defende que o papel dos progressistas é continuar incentivando a organização nas bases, e não assumir que a eleição de um presidente reflete o que a maioria sente.
Angela Davis, que estará acompanhada da acadêmica Gina Dent, também falou sobre a defesa do fim do sistema carcerário. Para ela, a abolição das prisões não minimiza o sofrimento das vítimas de crimes violentos. “Muitas pessoas se identificam com a justiça transformativa porque ela presta atenção não apenas às necessidades da pessoa que foi vitimizada, mas também atende às formas pelas quais a própria sociedade gera as forças que empurram as pessoas a agir”, afirmou.
Sobre o uso de tecnologias como reconhecimento facial e algoritmos preditivos na segurança pública, Davis classificou a prática como perigosa. “A base é o racismo estrutural. O policiamento preditivo é projetado para manter as estruturas sociais e econômicas como estão”, disse.
A ativista também comentou a relação entre a solidariedade ao povo palestino e o antissemitismo. Para ela, a tentativa de equiparar os dois é uma tática de conservadores. “A maioria das pesquisas nos EUA se inclina mais para a solidariedade palestina do que para o Estado de Israel. É a primeira vez que vemos essa expressão, e é lamentável ter sido necessária a destruição genocida de Gaza para que essa nova sensibilidade política emergisse”, declarou.
Davis criticou ainda a falta de organização do movimento progressista atual. “Não estamos organizados da forma que deveríamos. As possibilidades estão aí, mas não encontramos as formas organizacionais que nos permitirão dar expressão a esses sentimentos políticos”, afirmou.
