04/08/2026
Ferro Notícias»Notícias»Grupo criou Pix para controlar adolescente antes de morte

Grupo criou Pix para controlar adolescente antes de morte

Grupo criou Pix para controlar adolescente antes de morte

Investigadores da Operação Lívia revelaram que integrantes de uma organização criminosa criaram uma chave Pix em nome de uma adolescente de 13 anos, morta em Naviraí (MS), para enviar dinheiro destinado à compra de uma gilete usada em automutilação. A mãe da vítima não tinha conhecimento da existência da conta. A informação foi divulgada nesta terça-feira (4) durante coletiva do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O coordenador do Ciberlab (Laboratório de Operações Cibernéticas), Alessandro Barreto, afirmou que a forma como a chave Pix e a abertura da conta foram feitas ainda está sob investigação. Ele destacou que o episódio mostra o nível de controle que os suspeitos exerciam sobre a adolescente. “A mãe não sabia que ela tinha chave Pix. Os próprios criminosos criavam chave Pix para a menina, mandavam dinheiro para comprar gilete para se automutilar. Até essa abertura de conta está sendo verificada”, disse.

Segundo as autoridades, o domínio do grupo sobre as vítimas ia além da manipulação psicológica. Os integrantes controlavam o cotidiano dos adolescentes, definiam desafios e acompanhavam o cumprimento das ordens em tempo real, usando diferentes plataformas digitais para manter contato constante com os recrutados.

A investigação começou após a morte da adolescente, registrada em julho, em Naviraí. As primeiras diligências da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), em conjunto com o Ciberlab, indicaram que o caso não era isolado, mas fazia parte de uma organização criminosa estruturada, com alcance nacional, que recrutava crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional.

O secretário nacional de Direitos Digitais do MJSP, Victor Oliveira Fernandes, explicou que o grupo usava plataformas diferentes para cada etapa da ação criminosa. “Esse grupo atua simultaneamente no Telegram, fazendo comunicações e propagandas de eventos de automutilação e de induzimento ao suicídio de crianças e adolescentes, que são transmitidos em tempo real dentro da plataforma do Discord”, afirmou. Foi uma dessas transmissões investigadas que terminou na morte da adolescente sul-mato-grossense.

Estrutura organizada

A investigação encontrou documentos, conversas, planejamento e discussões sobre recrutamento de novos integrantes, o que indica que a organização mantinha uma estrutura permanente de funcionamento. “Não se trata simplesmente de existir um grupo aberto numa plataforma. A investigação tem documentação de uma sistematização, mais de um grupo, uma série de diálogos, reunião de documentos e discussão sobre recrutamento de novos integrantes”, explicou Victor Oliveira Fernandes.

Durante a apuração, os investigadores identificaram outra vítima em outro estado e reuniram elementos que indicam a existência de outros adolescentes ainda não localizados.

Operação nacional

A Operação Lívia foi coordenada nacionalmente pela DEPCA de Mato Grosso do Sul em conjunto com o Ciberlab. Foram cumpridas medidas judiciais em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará e Pará. Cinco adolescentes, dois de 13 anos, um de 14 e dois de 17 anos, foram apreendidos, e um investigado de 18 anos foi alvo da operação. Computadores, celulares e outros equipamentos eletrônicos passarão por perícia.

As autoridades revelaram que a investigação impediu um novo episódio semelhante. O monitoramento das conversas mostrou que outro caso já estava sendo planejado. Após a apreensão de um dos adolescentes investigados, a polícia passou a identificar possíveis vítimas e localizar seus familiares. “Pelo acompanhamento, havia o planejamento e, ontem, na apreensão do adolescente do Rio, ele confessou que realmente já estava agendado. Estamos vendo o nome das possíveis vítimas para mandar avisar os pais e responsáveis”, afirmou o delegado responsável pelo caso.

O Ministério da Justiça informou que notificará Discord e Telegram para solicitar a suspensão das contas e dos servidores utilizados pela organização. Também encaminhará à ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) um pedido para apurar possíveis violações ao ECA Digital e ao Marco Civil da Internet. A investigação identificou indícios de falhas na verificação de idade, na supervisão parental e na moderação de conteúdo das plataformas.

Avatar photo

Sobre o autor: Sofia Almeida

Ver todos os posts →
Índice de conteúdo