18/07/2026
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MP notifica gigantes da celulose sobre impactos de eucaliptos no Leste de MS

MP notifica gigantes da celulose sobre impactos de eucaliptos no Leste de MS

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul notificou as empresas Suzano e Eldorado Brasil para que apresentem, em 15 dias, esclarecimentos sobre possíveis danos ambientais causados pela expansão dos eucaliptais no leste do estado. O ofício foi enviado no último dia 10 pelo promotor Antônio Carlos Garcia de Oliveira, de Três Lagoas, às sedes das empresas em São Paulo. Outras duas gigantes do setor instaladas no Vale da Celulose, a Arauco e a Bracell, também podem ser chamadas a se manifestar no decorrer do inquérito civil.

As notificações representam uma mudança na relação entre o poder público e um setor tratado como prioridade estratégica para o desenvolvimento econômico do estado desde a virada do milênio. As articulações para atrair as primeiras grandes indústrias de celulose começaram no governo Zeca do PT e ganharam impulso em Três Lagoas durante a gestão da então prefeita Simone Tebet. Quase 25 anos depois, um pedido formulado pelo próprio Zeca, baseado em um laudo do gestor ambiental e secretário de Meio Ambiente de Selvíria, Valticinez Santiago, deu origem ao inquérito. O gestor citou cerca de 400 nascentes supostamente secas pelos eucaliptais.

O Ministério Público fez uma investigação prévia e concluiu que são necessários mais dados científicos para relacionar os danos à expansão da silvicultura ou a áreas que já estavam em processo de degradação pela pecuária. Em nota, a Suzano informou que não recebeu a notificação. A empresa afirmou manter compromisso com a conservação ambiental, disse que realiza o plantio apenas em áreas anteriormente ocupadas por atividades agropecuárias e destacou possuir política de desmatamento zero, certificações internacionais e 327 mil hectares destinados à conservação da biodiversidade em Mato Grosso do Sul. A Eldorado não se manifestou sobre a investigação, mas informou que atua em conformidade com a legislação brasileira.

A investigação do MPMS se apoia em levantamento próprio e em estudos técnicos que começaram a revelar os possíveis impactos da expansão dos eucaliptais sobre os recursos hídricos, a biodiversidade e a dinâmica das microbacias do Cerrado. Um dos principais é desenvolvido desde 2019 pela geógrafa francesa Marine Dubos-Raoul, professora convidada da UFMS. A pesquisa combina imagens históricas do MapBiomas desde 1985, análise de microbacias hidrográficas, séries pluviométricas e entrevistas com moradores e comunidades rurais.

O cruzamento dessas fontes aponta para um processo cumulativo de degradação ambiental, acelerado nos últimos quinze anos pela expansão do monocultivo de eucalipto sobre uma paisagem já alterada pela pecuária. A área plantada com eucalipto passou de 35.358 hectares em 1985 para 189.749 hectares em 2007, alcançando 893.320 hectares em 2024. Levantamento atualizado em 2025 estima que o estado já possua 1.729.763 hectares de florestas plantadas. No sentido inverso, a vegetação nativa despencou de 4.107.983 hectares para 1.562.499 hectares, uma perda superior a 2,5 milhões de hectares desde 1985.

A geógrafa Marine Dubos-Raoul afirma que o problema não é o eucalipto sozinho, mas o cultivo em grande escala e seus impactos. Ela cita um Cerrado praticamente eliminado, um clima naturalmente mais seco agravado pelos extremos climáticos e uma cultura exigente em água. A pesquisadora evita atribuir o secamento de nascentes exclusivamente ao eucalipto, mas demonstra que a sucessão de transformações na paisagem reduziu a capacidade natural de infiltração da água e de recarga dos aquíferos, alterando o funcionamento das microbacias. A série histórica de chuvas analisada indica que o volume anual de precipitação permaneceu relativamente estável nas últimas décadas, insuficiente para explicar sozinho o impacto em córregos, açudes e nascentes com vazão reduzida.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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