02/07/2026
Ferro Notícias»Notícias»MS é alvo estratégico do crime organizado

MS é alvo estratégico do crime organizado

MS é alvo estratégico do crime organizado

Um documento sobre segurança pública que será entregue aos candidatos à Presidência da República pela Esfera Brasil coloca Mato Grosso do Sul no centro dos efeitos do comércio da cocaína sobre a economia formal. O estudo aponta a corrosão das instituições pelo fortalecimento de facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho).

As propostas apresentadas aos presidenciáveis têm como base um estudo da Esfera Brasil em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Segundo o levantamento, o tráfico internacional da cocaína movimenta cerca de R$ 335,1 bilhões por ano com a droga que entra no país.

A pesquisa estima que aproximadamente 60% da droga que ingressa no Brasil pelas fronteiras com Bolívia e Paraguai passa por Mato Grosso do Sul. Esse fluxo equivale a cerca de R$ 200 bilhões anuais, valor superior ao Produto Interno Bruto (PIB) sul-mato-grossense.

Grande parte dos recursos é apropriada ao longo da cadeia criminosa, remetida ao exterior ou reciclada por mecanismos de lavagem de dinheiro. A magnitude desse mercado ajuda a explicar por que organizações criminosas passaram a disputar espaços na economia formal.

O presidente do Conselho Acadêmico do Instituto Esfera Brasil, Pierpaolo Bottini, afirmou que o governo precisa promover integração entre os órgãos de segurança e ampliar a cooperação internacional. Bottini defende o compartilhamento de bancos de dados e o fortalecimento do rastreamento financeiro para combater a lavagem de dinheiro.

Bottini citou a cadeia do etanol em Mato Grosso do Sul como um dos setores que mais preocupam. A Operação Carbono Oculto identificou, no fim do ano passado, oito distribuidoras de combustíveis em Iguatemi operadas por empresários com ligações com o PCC.

O poder econômico das facções foi medido pela capacidade de absorver perdas. Em 2025, a Polícia Federal retirou de circulação aproximadamente R$ 9,5 bilhões em bens ligados às facções. Mesmo assim, elas mantiveram as atividades. Nos primeiros 45 dias do programa Brasil Contra o Crime Organizado, o Ministério da Justiça contabilizou mais de R$ 2 bilhões bloqueados ou apreendidos.

Nem a perda de cargas de cocaína, estimadas entre 20 e 50 toneladas apreendidas em Corumbá e Cáceres (MT), comprometeu a capacidade financeira das organizações. O estudo conclui que o enfrentamento exige interromper os fluxos financeiros que sustentam essas organizações.

Bottini avalia que o crime organizado se tornou um agente econômico capaz de disputar mercados e adquirir empresas. “Um pedaço da economia foi capturado pelo crime organizado”, afirma.

O economista Pery Shikida, da Unioeste, sustenta que o criminoso compara ganhos, custos e riscos antes de agir. Uma pesquisa coordenada por ele em dez unidades prisionais de São Paulo mostrou que a renda média na atividade criminosa era de R$ 46,3 mil por mês, valor 12,9 vezes superior ao rendimento no mercado formal. Para 91,2% dos entrevistados, os benefícios superavam os custos.

Segundo Shikida, em Mato Grosso do Sul a probabilidade de êxito das operações ligadas ao tráfico pode variar entre 95% e 98%, reduzindo a chance de prisão para menos de 5%.

O secretário-executivo da Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul, coronel Wagner Ferreira da Silva, avalia que apenas aumentar apreensões ou prender integrantes das facções não altera a lógica financeira. “Só vamos medir resultados se houver ações efetivas de sufocamento do poder financeiro dessas organizações”, afirma.

Avatar photo

Sobre o autor: Sofia Almeida

Ver todos os posts →