O professor José Roberto Castilho Piqueira, da Escola Politécnica da USP, escreve sobre como a percepção do tempo molda a vida e o trabalho. Engenheiro especializado em sincronismo, ele explora as relações entre marcadores de tempo e comportamento humano.
No livro Objects of Time, do antropólogo Kevin K. Birth, Piqueira encontrou análises sobre a medição do tempo na Europa medieval. Durante a noite, sem a posição do Sol, técnicas de observação de estrelas eram usadas para saber as horas.
O texto aponta que a sociedade moderna trocou ciclos naturais por objetos manufaturados. Hoje, o alarme do despertador dita o ritmo, interrompendo o ciclo vigília-sono de quem precisa cumprir horários de trabalho.
Piqueira cita a cronobiologia para explicar que os sistemas temporais dos organismos têm diferenças individuais. Essas variações naturais, resultado da interação entre seres vivos e ambientes, podem causar distúrbios de saúde física e mental.
O autor relaciona essas questões à ergonomia, mencionando o colega Laerte Idal Sznelwar (1956-2025) e o filme Tempos Modernos, de Charlie Chaplin. Para Piqueira, a visão atual do tempo é pouco consistente com a vida.
Nossas medidas de tempo vêm de diferentes lógicas: múltiplos de dez, precisão dos relógios atômicos, calendário gregoriano e divisões de 24 horas e 60 minutos, herdadas de egípcios e babilônios.
Unidades de tempo baseadas na vida, como o intervalo de oviposição de insetos ou o ciclo de bebês, são inviáveis para a disciplina diária. O autor sugere observar a fadiga de trabalhadores em diferentes funções, mas reconhece a dificuldade de criar padrões universais.
A obra O fruto da generosidade, de Robin Wall Kimmerer, é citada como exemplo. A planta Amelanchier, ou fruta-presente, marca as estações para povos indígenas, que se movem conforme o alimento está pronto para colheita.
Piqueira conclui que a vida no planeta depende dos tempos dos fenômenos naturais. Observá-los, afirma, pode contribuir para sua preservação.
